CIVITATE - INCENTIVADORES

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

OLIMPÍADAS PODERÃO CHAMAR ATENÇÃO PARA A VIOLÊNCIA DO NARCOTRÁFICO NO RIO

"Faz apenas duas semanas que esta cidade notável conquistou o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016, um fato inédito na América do Sul, o que gerou uma comemoração de praia improvisada e repleta de suor que estendeu-se por quase todo o fim de semana. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chorou de alegria. Os moradores do Rio ficaram cobertos de orgulho.

Porém, durante o último final de semana, em uma assustadora explosão de violência, traficantes que portavam aquilo que a polícia acredita ser uma arma de grosso calibre abateram um helicóptero da polícia a apenas pouco mais de 1,5 quilômetro do estádio do Maracanã, onde serão realizadas as cerimônias de abertura e de encerramento dos Jogos Olímpicos, e onde a final da Copa do Mundo será disputada dois anos antes das Olimpíadas.

De repente, a comemoração foi superada pela preocupação com o fato de o problema crônico da violência do narcotráfico no Rio de Janeiro estar sendo exposto para o mundo inteiro em um momento particularmente inoportuno. Os líderes brasileiros estão peregrinando pelo mundo, buscando os investimentos externos no valor de bilhões de dólares necessários para a construção da infraestrutura urbana fundamental para que o país se prepare para os eventos esportivos.

"As imagens do helicóptero da polícia abatido realmente chocaram os brasileiros, e agora todos estão preocupados com o que acontecerá com os jogos olímpicos", afirma Nadine Matos, 21, que trabalha em um salão de beleza a um quarteirão da praia de Copacabana. "Precisamos dizer ao mundo em que posição nos encontramos de forma que as pessoas fora do Brasil entendam as medidas que estamos tomando e não fiquem tão preocupadas quando planejarem vir até aqui".

Durante anos, a polícia praticamente abandonou as favelas que cercam os bairros mais ricos da cidade, de acordo com uma política que lembra mais a contenção do que a imposição da lei. Isso permitiu que os traficantes de drogas criassem redutos da criminalidade nos quais a violência é generalizada. E, conforme se pode ver com o abate do helicóptero, a polícia não fez o suficiente no sentido de reduzir o fluxo de armamentos pesados para as favelas.

"Nós nunca ocultamos os nossos problemas durante o processo eleitoral", afirmou o prefeito do Rio, Eduardo Paes, cercado por repórteres em Londres, onde estava, na primeira etapa de uma viagem em busca de investidores para projetos de obras públicas. "Sempre dissemos ao povo que ainda enfrentávamos problemas. Ainda temos muito o que fazer, temos uma longa estrada a nossa frente e aquilo que ocorreu no último fim de semana revelou bem isso".

Neste ano o governo testou uma abordagem de policiamento comunitário para conter a violência e coibir o controle dos narcotraficantes em dezenas de favelas, nas quais reside cerca de um terço dos 6 milhões de moradores do Rio. Mas esse esforço está na fase inicial, tendo afetado até agora apenas cinco favelas, e o caos do último fim de semana gerou uma nova onda de debates aqui para determinar se a estratégia de cunho mais militarista que prevaleceu durante tanto tempo não seria útil.

A polícia disse que a violência do fim de semana teve início depois que um traficante na prisão ordenou aos seus subordinados que invadissem o território de uma quadrilha rival. O ataque fez com que tivessem início confrontos entre a polícia e os bandidos do narcotráfico em diversas favelas, deixando pelo menos 22 pessoas mortas, incluindo três policiais e alguns civis inocentes.

Pelo menos um membro do Comitê Olímpico Internacional, que frisou que o problema da segurança no Rio de Janeiro era a sua maior preocupação antes da votação de 2 de outubro, apressou-se em observar que o Rio não é a única cidade a enfrentar a violência após conquistar o direito de sediar as Olimpíadas. Em julho de 2005, apenas um dia após Londres ter sido escolhida como sede dos jogos de 2012, terroristas detonaram bombas em trens e ônibus da capital inglesa, deixando 52 pessoas mortas e quase 700 feridas.

Os programas de entrevista televisiva e os jornais brasileiros estão repletos de comentários a respeito do efeito da violência sobre a imagem do Rio, e os líderes municipais e estaduais estão sendo subitamente obrigados a voltar a defender a proposta olímpica para a cidade.

"Haverá segurança antes, durante e depois dos jogos", afirmou no sábado Sérgio Cabral, o governador do Estado do Rio de Janeiro.

A conquista das Olimpíadas foi vista aqui como uma façanha enorme para o país e como um triunfo pessoal para o popular Lula. Mas, na última segunda-feira, o presidente também se viu forçado a prometer dinheiro adicional do governo federal nos próximos meses para reforçar a segurança no Rio. "Tenho que limpar a sujeira que essa gente impõe ao Brasil", afirmou Lula.

O Rio tem uma das maiores taxas de homicídios do mundo, com 4.631 assassinatos registrados na zona metropolitana no ano passado, o que representou uma queda em relação aos 5.143 assassinatos ocorridos em 2006, de acordo com as estatísticas oficiais. A título de comparação, no ano passado foram registrados 523 homicídios na cidade de Nova York.

O governador do Estado do Rio deu início a um programa de policiamento comunitário no início deste ano, no qual policiais procuram estabelecer uma presença mais permanente nas favelas. Isso difere da abordagem predominante por mais de uma década, segundo a qual a polícia montava guarda nos pontos de entrada das favelas e só se engajava em operações selecionadas. Estas operações transformavam-se com frequência em batalhas armadas letais com os traficantes.

Embora a iniciativa de policiamento comunitário tenha se limitado até agora a cinco favelas, especialistas em segurança pública dizem que se sentem encorajados.

"Pela primeira vez a polícia não está entrando nas favelas atirando, e depois partindo, o que só atrai o ódio e o desprezo dos moradores", afirma Sílvia Ramos, coordenadora do centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro.

Outros analistas dizem acreditar que a nova abordagem precisa ser acompanhada de novos projetos habitacionais e da construção de avenidas largas nas favelas que permitam que as viaturas policiais entrem e saiam com facilidade desses locais.

A confusão do fim de semana começou quando membros de uma quadrilha do Morro de São João, apoiados por cerca de 200 homens de outras favelas, invadiram o vizinho Morro dos Macacos.

A polícia esperou para agir até o início do sábado, durante o dia, para evitar baixas civis, disse aos repórteres o secretário da segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame.

Quando a polícia se dirigiu à favela, membros da quadrilha abriram fogo contra um helicóptero policial, fazendo com que este explodisse e caísse. Dois dos seis policiais que estavam a bordo morreram.

Organizadores da proposta de realização das Olimpíadas no Rio prometeram ao Comitê Olímpico Internacional que a cidade aperfeiçoaria as suas forças policiais até 2012, com treinamento, tecnologia e recursos adicionais. Especialistas em segurança pública esperam que isso signifique que as Olimpíadas deixarão um legado de melhoria do policiamento no Rio.

"O custo da segurança será bastante elevado, mas isso valerá a pena", diz Rodrigo Pimentel, um ex-capitão da unidade de operações especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro. "Sejamos honestos. O abate de mais um helicóptero ou uma outra invasão de favela no Rio de Janeiro poderia elevar bastante a possibilidade de que as Olimpíadas e a Copa do Mundo fossem retiradas do Brasil"."

(Fonte: Myma Domit - Alexei Barrionuevo, The New York Times e Uol)

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