CIVITATE - INCENTIVADORES

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

DIREITO ?

"Direito. Qual direito eu tenho de não ter direito? Cumpro minhas ordens, sou correto. Sinto peso nas costas de trabalhar, obedeço às regras. E ainda assim tenho medo, medo de deixar minha filha sem sustento. Está difícil, a cada dia, está difícil a todo dia, não sei se me desespero ou se continuo a lutar. A vida difícil não pode mais estar. Escrevo, rimo, sinto, meus olhos lacrimejam, não consigo criticar mais ninguém, nem político, nem empresário, nem o povo, nem a mim, a incompetência de não conseguir é minha e a dificuldade, a falta, à incerteza, não tenho certeza de mais nada só que estou cansado, de lutar. Sei que sou forte, continuo por causa delas, por minha causa tinha desistido, estudo leio, luto, estudo e leio. Aprendo que aprender aumenta minha percepção de incapacidade, e que as vezes não podemos fazer mais nada, ainda tendo uma chance de poder fazer alguma coisa, não sei mais se resolve escrever, meus pensamentos viajam no sonho próximo distante. Enquanto meus olhos lacrimejam por algo simples e difícil.

A cada dia sinto que o tempo corrói as vontades e quando consigo algo, uma nuvem vem e me toma, mas continuo por que no mais difícil me torno forte, o meu maior prazer é chegar em casa e olhar nos olhos de minhas filhas sorridentes, nem imaginam como e difícil cuidar delas, três filhas, uma de três anos, duas gêmeas de três meses. Até quando elas choram são lindas. E continuo, escrevo o que penso, o que sinto, nem sei se alguém vai ler, nem sei se alguém lembra de alguém ai. Dói sim, às vezes dói muito e temos que segurar as lágrimas por que tem a família olhando. O dia esta mais longo? Ou eu que não o vejo passar? Ou o dinheiro do final do mês acaba no mês que passou? Passou. O dinheiro. Dinheiro falta às vezes, quase sempre. Se eu trabalho? Trabalho sim, mas...

Enfim, não fujo ao trabalho, eu escrevo, mas quem pagaria alguma coisa por um escritor que ninguém conhece? Nem eu mesmo me conheço. Eu estudo, estudo sim mais do que deveria, mas até hoje, não sei se tomei decisões erradas ou se foi infortúnio mesmo. Trabalho mais de dez horas por dia, sem folga, sabe o que escuto quase todo dia? Pai, você vai-me da aquela bicicleta num vai?

Sabe quem fala isso? Minha filha de três anos, acho que já devem estar cansados de ouvir falar de minha filha, mas... Se imaginem sem pensar em seus filhos? Ah, e sobre a bicicleta?

Respondo com uma mentira humilde e sincera de doer o coração que vou comprar a melhor bicicleta do mundo, na sua cabeça de criança de verdade, espera, e espera a melhor bicicleta que possa existir, a melhor do mundo só para ela. Somos puros e somos crianças, sempre esperamos nossas bicicletas chegarem até hoje. E ela nunca vem...

Mais um dia passou. O dia seguinte àqueles dias que se passaram. E enfim...Minha mão tremeu quando olhei o diário oficial e meu nome estava lá, Davidson Luis Menezes Rodrigues, aprovado no concurso da Polícia Militar do Ceará, não acreditei, já imaginava tudo melhorando, ah, melhorando sim tudo, dizem que o salário é pouco. Bem... Pra mim nesse momento é uma fortuna, e melhor ainda, no que sempre desejei ser, policial, palavra bonita, policial, guardião, protetor. Nossa sempre imaginei que só os anjos guardavam e protegiam, mas não, todos os policiais já fazem isso faz tempo.

Ouvi da Larinha minha filha: Papai você vai ser Policia? Disse a ela: Gostaria. Que bom passei na primeira fase do concurso, perfeito, vêm à segunda fase, nossa, exames médicos, muitos, caros, nossa, caros, pra mim nesse momento foi escolha, deixar de comprar algo para casa e fazer os exames, deixei de comprar coisas para casa. Coisas para casa? Sim, comida. Você é louco? Disse minha esposa Michele. Não o leite NAN é R$ 12,80, tenho que cortar gastos e fazer esses exames. Disse isso a minha esposa. Elas terão que tomar leite mais barato, quando passar no concurso todo, já estarei ganhando mais e por mim pode ate ficar com meu pagamento todo. Minha esposa riu, riu bastante e ficamos felizes por um momento, toda família ficou feliz, por um momento, momentos passam. E recebi os exames. Nossa, passei em tudo, biométrico, odontológico, toxicológico, médico, quanta coisa, consegui pagar os exames pedindo emprestado de um e de outro, mas não importa vou pagar a todos. Sobre os exames? Não era surpresa, sou saudável tenho boa saúde, sou forte, sou bravo. Aquele momento passou. Lembra daquele momento de felicidade? Passou, e agora só a dor, de não poder me matricular no curso de formação para polícia militar? O que? Não posso me matricular? Não, você passou da idade. Mas e minha filha.

Você passou da idade. Mas, e o dinheiro que gastei, tenho apenas 32 anos. O concurso quer só quem tem 29, mas na inscrição eu ti... Não importa. Indeferido.

Papai você vai ser policia? Nem sei mais o que sou Larinha. Nem sei. Sou apenas mais um. Como sempre só mais um. Sentindo a dor, os olhos com lágrimas, sentindo tempo passado e o tempo passando, sou mais um entre muitos que sonham e que vão continuar tentando. Mas ta doendo, foi um golpe, no peito, no coração, a esperança veio, a fé, a luta, alegria... Veio... A dor, veio a angústia, veio as palavras: INDEFERIDO, NÃO PODE. Não pode, não queremos você, inútil. Larinha, fui rejeitado, porque acham que não posso ser bom. Larinha minha filha sou bom posso até ser o melhor. Mas, desculpe por não ter conseguido filha, alias minha família toda, Michele que deixou trocar os leites, minha filha que ainda espera a bicicleta, e as bêbês que ainda não sabem que seu pai não serviu, mas que seu pai é pai e serve como pai e sempre irá amá-las. Como tudo que for possível.

Desculpem não poder continuar mais, to muito triste, sem meios, sem perspectivas, sem prazer, apenas ainda com fé, sou forte, sou bravo, sou bom, sou simples, não sou talvez o que precisam, sou apenas mais um."

(Fonte: Via e-mail do Davidson Luis Menezes Rodrigues)


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.