CIVITATE - INCENTIVADORES

sábado, 12 de fevereiro de 2011

INFLAÇÃO CORRÓI A RENDA DOS MAIS POBRES

Trabalhadores de baixa renda, aposentados e pensionistas terão que apertar o cinto. Apesar de o governo estar disposto a aumentar o salário mínimo para R$ 545 — as centrais sindicais defendem R$ 560 e a oposição, R$ 600 —, o reajuste poderá não ser suficiente para cobrir o estrago que a inflação está fazendo no orçamento das famílias menos favorecidas. Segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), o Índice de Preços ao Consumidor — Classe 1 (IPC-C1), que mede o custo de vida nos lares com rendimento mensal de até 2,5 salários (R$ 1.350), subiu 1,4% em janeiro, bem acima do 0,83% verificado na classe média. Em 12 meses, o indicador saltou 7,41%.

A corrosão está se dando por meio dos alimentos e das passagens de ônibus, ou seja, dois itens vitais para essa parcela significativa da população. Juntos, comida e transportes consomem quase 70% do orçamento das famílias de baixa renda. “Os preços dos alimentos deverão dar um alívio nos próximos meses. Mas, para os mais pobres, o tormento atual é grande. Muita gente está sendo obrigada a cortar itens importantes na alimentação, para não estourar o salário”, disse Carlos Thadeu de Freitas Gomes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

Pelos cálculos da FGV, o custo médio com transportes ficou 5,1% maior no mês passado. Já o valor da comida avançou 1,3%, depois de ter aumentado 1,4% em dezembro. Assustada, a dona de casa Silvana Costa Santana, 45 anos, faz ginástica para driblar a carestia. “A gente tem que se virar para dar conta. Estou trocando tudo no cardápio de casa. Só compro o que estiver mais barato. Antes, eu podia comprar picanha, por exemplo. Agora, só carne moída”, afirmou. Com os legumes e frutas, ela usa a mesma tática. “Nada de tomate e batata caros.” Supérfluos, só uns biscoitinhos. “E olhe lá.”

Ida aos feirões

Outra opção dos consumidores para driblar os preços altos é aproveitar os feirões nos supermercados. Redes de varejo, como Veneza, WalMart, Pão de Açúcar e Extra, mantêm a tradição de oferecer descontos de até 30% entre a terça e a sexta-feira. Nesses dias, há promoção de frutas, legumes, verduras, peixes e alguns cortes de carne bovina — esse, um artigo cada vez mais raro na mesa dos brasileiros de renda mais baixa.

O diretor regional no Centro-Oeste do Pão de Açúcar, Onofre Silva, alertou, no entanto, para a atenção que os consumidores devem ter com a qualidade dos alimentos. “A concorrência tem aumentado a cada dia e a preocupação de oferecer a melhor cesta é fundamental. Na hora de fazer as compras, os clientes devem prestar atenção e comparar marcas, qualidade e origem, principalmente de produtos perecíveis”, aconselhou.

A autônoma Cláudia Maria de Jesus da Silva, 40 anos, compra carnes e verduras sempre às quartas e quintas-feiras nos feirões. Embora os descontos variem entre R$ 2 e R$ 5 por peça de carne, o esforço vale a pena. “Como está tudo muito caro, essa é uma boa alternativa. Sempre fico de olho nas liquidações”, disse.

Peso da educação

Para Carlos Thadeu, da CNC, apesar de não ser o ideal, o mínimo de R$ 545 garante ganho real e segue um acordo para a recomposição do poder de compra dos trabalhadores. “Neste ano, o aumento será pequeno. Mas, em 2011, tendo em vista o robusto crescimento econômico de 2010, a alta será enorme”, assinalou. Para o vendedor Nicanor Teixeira de Almeida, 57 anos, que gasta em torno de R$ 600 nas compras mensais, quem ganha um salário mínimo é artista. Ele logo detectou o peso da inflação ao chegar ao supermercado .“O frango está caríssimo. Antes, o quilo saía por R$ 1; hoje, custa R$ 5”, relatou.

O economista Robson Gonçalves, da FGV-SP, lembrou que o Brasil, em 2010, cresceu mais do que podia, e errou ao estimular o consumo, especialmente por meio do endividamento, em vez da produção. “Agora, a fatura chegou”, afirmou. A seu ver, assim como a inflação está corroendo o poder de compra da população, o reajuste do salário mínimo será um “drama” para a Previdência Social, cujo rombo aumentará. Como do lado do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) não há muito o que fazer, o governo terá que agir para botar a inflação nos eixos, especialmente porque a disparada dos preços está afetando, com maior força, o eleitorado que levou Dilma Rousseff à Presidência da República. Mantido esse quadro, o desgaste será enorme para ela. Há pesquisas preliminares mostrando queda na sua popularidade —, o que já assusta o Palácio do Planalto.

O primeiro passo para tentar levar os índices de preços para os 4,5% do centro da meta perseguida pelo Banco Central, o Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou a taxa básica de juros (Selic) de 10,75% para 11,25% ao ano e deve elevá-la novamente para 11,75% em março. O governo também anunciou corte de R$ 50 bilhões no Orçamento deste ano, o que, nas contas dos analistas, equivale a um aumento de um ponto percentual na Selic. “O controle da inflação é fundamental para manter as conquistas sociais obtidas nos últimos anos”, disse um técnico do Ministério da Fazenda. Além dos alimentos e dos transportes (a passagem de ônibus encareceu 5,5%), os consumidores suaram para bancar o reajuste médio de 3,51% no grupo educação (os cursos pré-escolar aumentaram 8,43%).

Emprego patina

O emprego na indústria brasileira caiu ligeiramente em dezembro diante da competição com os importados, mas encerrou 2010 com o maior crescimento desde 2002, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na comparação com novembro, houve queda de 0,1%, depois de quatro meses de estabilidade no quadro de pessoal. No ano passado como um todo, o emprego no setor avançou 3,4%, a maior variação desde 2002, após um recuo de 5% em 2009, quando a indústria refletiu todo o impacto da crise mundial. Em dezembro, todos as 14 regiões do país pesquisadas pelo IBGE tiveram alta do emprego na comparação como mesmo mês do exercício anterior, com destaque para São Paulo ( 3%) e região Nordeste ( 3,4%). Entre os 18 setores analisados, 13 registraram contratações, principalmente no de transportes ( 8,7%) e produtos de metal (10%).

(Fonte: Vera Batista e Cristiane Bonfanti - Correio Braziliense)

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