CIVITATE - INCENTIVADORES

domingo, 27 de fevereiro de 2011

BLINDADOS BRASILEIROS USADOS CONTRA MANIFESTANTES

"Kadhafi comprou em 2006 blindados brasileiros para conter tumultos."

Uma empresa de Barueri, na Grande São Paulo, montou sob encomenda e vendeu ao governo líbio, em 2006, 26 veículos blindados voltados ao combate de tumultos populares. O gerente geral da empresa, Amaury Belmonte, disse ao G1 que na época da transação e até a última vez que ele visitou o país, em 2008, não havia a menor perspectiva de que o regime de Muamnar Kadhafi fosse enfrentar uma revolta como a que está ocorrendo agora. Cada unidade saiu por cerca de US$ 500 mil.

"Naquela época era para combater distúrbios de rua. Não acredito que eles achassem que poderia haver esse tipo de convulsão. A última coisa que Kadhafi poderia pensar é que seria apeado do governo", comentou. Segundo Belmonte, os veículos não foram equipadados com armas letais.

Belmonte contou que, entre os veículos montados em Barueri e vendidos à polícia libia, todos pintados de azul, há duas unidades de comando equipadas com câmeras e monitores de vídeo, capacidade para filmar e transmitir imagens, banheiro, geladeira, cama e ar condicionado. "É uma espécie de motor home, uma estação para operação tática, que permite estacionar o veículo, captar imagens e transmitir", afirmou. Os carros equipados com jato d'água suportam carga de 10 mil litros e tem capacidade de derrubar um homem a 30 metros de distância. Além desses, a Líbia comprou veículos para transporte de tropas e de presos.

A empresa paulista foi localizada por um intermediário líbio por meio da internet. "A primeira coisa que eles procuram é qualidade e tecnologia, mas também preço", disse Belmonte. Depois de negociações, segundo ele, "bastante duras", os clientes acertaram a compra. "Eles são muito bons de negociação. É difícil para nós ocidentais negociar com eles, mas são bons pagadores", afirmou.

A montagem e entrega dos veículos exigiu seis meses de trabalho de uma equipe com aproximadamente 30 homens. "Chegamos a trabalhar 22 horas por dia para fazer as entregas no prazo", afirmou.

Belmonte, que esteve na Líbia em 2008 para vender peças de reposição, disse que sempre teve a impressão de um país tranquilo. "A impressão que tive era de um país calmo, muçulmano, com as restrições todas que tem", afirmou.

Nos últimos dias, no entanto, o país tem vivido um caos, com relatos de enfrentamentos entre forças do governo e manifestantes. Segundo fontes locais, mais de 20 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas nos protestos.

Os veículos que foram entregues era da empresa então conhecida como O'Gara-Hess & Eisenhardt, filial brasileira da empresa americana especializada em blindagem de automóveis sediada em Alphaville, em São Paulo, e que hoje chama-se Centigon Brasil.

A empresa

A Centigon, hoje controlada por uma holding com sede na Bélgica, também vende veículos blindados para transporte de valores e faz blindagem de automóveis civis. A empresa exportou veículos semelhantes para a Colômbia, Chile e Peru.

A filial americana é responsável pela blindagem dos "jipões" Hummer do exército dos EUA empregados no Iraque e Afeganistão. O desenvolvimento de veículos blindados foi uma das áreas de maior expansão na indústria bélica americana por conta dos aparatos explosivos improvisados, a maior causa de mortes e ferimentos de soldados americanos no Iraque.

Histórico

A ligação da indústria bélica brasileira com a Líbia é antiga. Foi a venda ao país de 400 blindados de reconhecimento EE-9 Cascavel, armados com canhão de calibre 90 mm, nos anos de 1980, que deu o grande impulso à fabricante Engesa, de São Paulo.

A Líbia usou o Cascavel em disputas de fronteira no Chade e Egito. Os líbios também compraram da Engesa 180 veículos blindados de transporte de tropas EE-11 Urutu.

(Fonte: G1, IHU)

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